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Arquivo da categoria ‘Poesia’

So há poesia… Por Claude Bloc


Para amenizar um pouco o calor dos ânimos…
… Ei, tristeza,não sei quem te chamou. Portanto, te peço, arreda o pé, vai embora… Já te releguei ao passado e não quero mais cruzar o teu caminho!
… Pois é, dona tristeza, visitei lugares de minha infância lá pelas bandas do Crato e vi que a velha casa onde morei quando criança ainda estava incólume, austera, mas entristecida e abandonada.
… Eu mesma a larguei por tanto tempo que nem suportava mais toda a saudade acumulada em meus guardados. Percebi, também nessa visita, que, depois desse degredo, já não existem mais os pés de cajarana que reguei, nem as duas goiabeiras em cuja sombra me assentei, a cobiçar os frutos nos galhos mais altos…
… Só sei que cheguei lá devagarzinho e fiquei ali, diante dessas ausências sem perceber com clareza que estar com você, tristeza, é o mesmo que estar diante de um espaço vazio. Saber que, cedo ou tarde, tudo o que está presente ficará ausente. É isso!
… Você é traiçoeira e se expande… e vai testemunhando esse mistério da despedida gravado em nossa própria carne. Essas lembranças que vamos carregando e esse ar de despedida colocado em tudo o que fazemos e deixamos pra trás…
… Você, tristeza, é essa ausência que demora, ausência que devora: o espaço entre o belo e o efêmero de onde nasce a poesia. E assim, nessa amálgama os poetas vão colocando suas palavras sobre o vazio. Não um vazio qualquer, mas um vazio que é um “pedaço arrancado de mim”. Um exercício de saudade; de tornar de novo presente, um passado que já se foi.
… Então penso em Drummond que afirmava não lastimar o espaço vazio no seu texto “Ausência”: “por muito tempo achei que ausência é falta. E lastimava, ignorante, a falta. Hoje não o lastimo. Não há falta na ausência. A ausência é um estar em mim. E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços, que rio e danço e invento exclamações alegres, porque a ausência, essa ausência assimilada, ninguém a rouba de mim…”
… Portanto, dona tristeza, procure outras paragens, pois no vazio de minhas noites só há poesia…
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Texto e foto por Claude Bloc

Ruído das Águas – Por Claude Bloc

Enquanto chega o domingo, uma conversa de sábado…  E onde anda a poesia?


A quem devo amar neste momento ?
O que devo olhar, além do sonho e do silêncio?
A que devo amar, senhor de todos os mares?
E o que devo escutar além do ruído dessas águas?
A quem devo mostrar o amor que tenho guardado?
A quem devo obediência
……………………….. quando já vivi três quartos do tempo?
Onde vou deixar meus versos e prosas
Que se estampam em contrapasso
………………………… no tempo?
A quem, pergunto eu…
A quem devo amar neste momento de espera?

Texto e foto de Claude Bloc

NUNCA DIZER : FIZ UMA POESIA – Por :Fabio Brüggemann


NUNCA DIZER: “FIZ UMA POESIA”
Uma das coisas mais irritantes no uso da língua portuguesa – além dos cacofônicos “a nível de”, “estaremos enviando”, “eu enquanto sujeito”, “pretender objetivar”, “neste sentido” e outros vícios acadêmicos – é quando um pretenso poeta diz que “escreveu uma poesia”. O leitor tem todo o direito de não saber a diferença entre poesia e poema, agora, faz favor, poetas com livros publicados e tudo, associados a academias de louros e letras, fundadores de pseudo-grupelhos autodenominados livres – como se quem não pertencesse a seu universo fosse necessariamente preso – não têm direito de confundir poesia com poema. E como quem não quer nada, tentarei aqui explicar ao leitor (e me corrijam se eu estiver errado) a diferença entre uma coisa e outra.
O poema é o objeto, a espinha dorsal, a forma, o emaranhado de palavras antes de seu sentido, o significante a espera que o leitor atribua seu significado, o molde das idéias (porém, não as idéias), a caixa silenciosa que fala, o truque da língua, o cimento, a estrutura, a maquinaria textual, enfim, é tudo que lembra a fábrica, o concreto.A poesia não está apenas no poema. Reside nas películas a 24 quadros por segundo, nas xícaras que mexem da Fernanda, na música, no teatro, no olho da mulher que adora a palavra , e sobretudo no amor que sinto por ela, na intenção, no que se quer dizer antes que se diga, na estratégia, no pensar e no falar, na cor do miolo da boca, num filme de Godard, na tela de Edward Münch, nas coisas que não dependem de descrição, na intenção, no tudo que é abstrato.Aquilo que realça de preto no branco do papel é poema, o que se compreende disso é poesia. O que está impresso nos livros de poesia é poema, mas não é poesia. Pode se dizer “a poesia de Fernando Pessoa”, coisa bem diferente de se dizer “o poema de Fernando Pessoa”. O que se pode decorar é poema, o que se guarda sem se lembrar é poesia. Portanto, aquilo que se escreve é o poema, e ele pode ou não conter poesia, e a essência do que se desprende dali é o que se pode chamar de poesia. Faz tempo que não escrevo um poema, apesar de ter prometido a Vanessa um que fosse ruim, para que ela coloque na caixa de um projeto gráfico igualmente ruim. Tarefa tão inglória quanto escrever, talvez um bom poema. Mas, como diria o poeta Marco Vasques, não sou habilitado para falar de poesia e de poemas, porque sou ex-poeta, apesar de procurar aqui e ali uma poesia qualquer no meio dessa prosa porosa que é o mundo. A poesia está para a prosa, assim como o amor está para a amizade, cantou o poeta que nunca publicou um livro de poesia e que nunca escreveu um poema. Prova maior de que estas coisas se têm nomes distintos, devem ser mesmo diferentes.
Fábio Brüggemann

Perto, bem perto.

Uma pergunta que muita gente faz para quem escreve é de onde vem a inspiração. Antes de responder, sempre digo que a priori não creio em inspiração. O que já é uma resposta. Se não creio, como poderia saber de onde ela vem? A idéia da existência de uma musa que sopre no ouvido os versos já prontos ou de que o escritor é um sujeito passível de ser inspirado é muito antiga. Por conta disso, fica difícil desassociar escritor da idéia de musa. Escrever não é uma atividade comum, não exige curso superior, e a densidade escritor por metro quadrado é bem pequena. Para saber escrever é preciso, antes de mais nada, saber ler. Isso vale para qualquer atividade humana. Ninguém decide ser ator sem nunca ter ido ao teatro. Dificilmente um sujeito opta pela arquitetura sem ter se encantado com alguma forma, e por aí vai. Ao que chamam de inspiração, nada mais é do que uma espécie de memória afetiva, que vez ou outra surpreende com alguma imagem, ou idéia. Mas ela não é estranha, estrangeira, ou venha de fora de nós. Só podemos escrever sobre aquilo que conhecemos. Nem sei, na verdade, porque estou falando sobre isso. Talvez seja a famosa embromação, doença que acomete cronistas de vez em quando. Não por falta de assunto. Eles não faltam, basta abrir os jornais, caminhar no calçadão, ouvir uma conversa no café sem que os que falam percebam, ler um livro, enfim, conhecer alguém. Poderia falar sobre os dias lindos que têm feito, sobre o friozinho bom. Assunto nunca falta. Até mesmo a falta de assunto é um assunto. Mas tem dias que tudo fica meio entorpecido. Dá vontade de falar sobre nada mesmo, apenas sentar no banco da praça e contar quantos passantes têm blusa amarela, quantos usam anéis, ou no que está pensando aquela senhora com sacolas na mão e passo apertado. Vontade mesmo é de fechar os olhos e sentir o calor do sol, não dar nome às coisas, apenas querer ter nascido pelo menos vinte anos mais tarde, para que qualquer diferença não fosse sentida, não causasse confusão, e querer ficar perto, bem perto. Tão perto que nem o fio da luz do sol consiga passar por entre os corpos.

Fábio Brüggemann

Coisa de sábado – Por Claude Bloc


…. Há coisas que nos vêm assim devagarzinho, meio (in)esperadas, mágicas ou totalmente esdrúxulas. São coisas de fato?
…. Coisas que nos inquietam, que nos atiçam, que nos trazem os sabores da noite, ou os ruídos surdos da madrugada, como o palpitar de uma lembrança, ou quem sabe, a sombra de um sonho que gostamos de manter sob as pálpebras, sem qualquer pudor. Que cores têm essas coisas?
…. Há coisas que nem revelamos. Que guardamos em nosso relicário secreto. Coisas que nos trazem de volta rostos que não podemos esquecer. Coisas que representam o presente ou o passado, e tudo o que nos é caro. São as coisas que nos acontecem no momento exato em nos deparamos com a verdade e entendemos que, no mais profundo de nós mesmos está sempre essa criança indomável que nos interpela e que nos impele às “coisas (im)possíveis”… aos trocadilhos, à liberdade (in)cômoda, ao discorrer de uma longa história (quase) sem sentido, mas tão sentida.
…. Há coisas que nos fazem tropeçar e, nos tropeços, nos fazem andar pra frente. Somos então, nesse momento, mera e simplesmente seres errantes nessa coisa que se chama vida, procurando acertar o nosso passo e nosso (p)rumo.Coisas da vida!
…. Há coisas – pois que não há outro nome para isto – que nos atropelam e, paradoxalmente, nos envolvem com o mel da doçura… Coisas, coisas tantas. Coisas que queremos manter em nosso pensamento, coisas que, de tão simples são tão intensas. Coisas que nos aquecem a alma. Coisas lindas, que não queremos findas. Coisas que tecem as nossas emoções, e que nos fazem felizes. Coisas bobas?
…. quais são essas coisas?
…. Digo: coisas que sempre prezamos, coisas de que ardentemente precisamos: o sentimento mais nobre, o sentimento mais leve…
…. Coisas que nos engrandecem e que se cristalizam no âmago do nosso ser. Como um sentimento que gruda e nos faz exultar.
…. E aí nos perdemos para nos encontrarmos na essência dessas coisas, e essa essência não cabe dentro das próprias coisas… Tentar capturar essa essência seria um pouco como tentar guardar uma gaveta dentro duma outra gaveta rigorosamente igual. De qualquer forma, quem é que disse que uma gaveta é para guardar coisas? Por que é que não podemos ter uma gaveta vazia reservada para a essência daquilo que julgamos querer ou ter?
….E de onde nos vêm essas coisas que tanto queremos e não sabemos explicar?
Por Claude Bloc

Dois Poemas – PESARES – Dihelson Mendonça e Antonio Sávio

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Que beleza de Domingo… todo mundo na praia curtindo, aqui no Crato esse sol com algumas núvens e o calor do verão que se aproxima. Sentado aqui em meu posto, catalogando mais de 5000 mensagens em 30 categorias ( trabalho de louco, já que se gasta em média uns 30 segundos em cada uma ), resolvi dar um tempo e procurando aqui nos meus alfarrábios, encontrei um poema que fiz a partir de outro. Na verdade, o poeta Antonio Sávio escreveu um poema chamado “PESARES”, que eu achei muito bonito, a não ser por um detalhe que para mim, seria essencial nesse tipo de abordagem, o uso da rima e a própria disposição de algumas frases. Resolvi reconstruir o poema a meu modo, mudando daqui e de lá… evidentemente, o leitor escolhe um ou outro. O resultado está aqui. Já foi publicado há alguns meses no cariricult:

PESARES ( Antonio Sávio )

Apesar de tudo, e dos sentidos que aguçamos
Como o limar de uma pedra sem fim
Permance o opaco sobre os olhos
E uma nuvem intensa sobre a paisagem

Os elefantes, pelo delírio vôam
E as borboletas diferente de antes
Rastejam a vaidade de suas asas sobre a gleba
Nada mudou, mas tudo enfim não há de permanecer o mesmo

Não ao mesmo sol a vazar sobre as arestas
Das frestas das fendas de minha porta
Corta então o tédio arenoso sobre mim
Pois a vista perdida na paisagem,

A catar as migalhas da realidade
Que me encaparam entre os dedos
E agora resta-me o medo,
Dos segredos deste fardo, que arde sobre mim

PESARES ( Dihelson Mendonça )

Apesar de tudo, dos sentidos que aguçamos
como o limar de uma grande rocha sem fim
permanece inda o opaco brilho sobre os olhos
cravados em nuvens e paisagens dentro de mim

Sobre a gleba insana rastejam borboletas
de vaidade pura nas asas – pobres delírantes -
voam também por sobre as nuvens os elefantes
nada mudou, nem manterão tais silhuetas

Não ao mesmo sol a vazar sobre as arestas
das frestas podres e de fendas à minha porta
corta a faca, corta o tédio, corta a testa
corta a planície, cortam serras sotopostas

Viver das migalhas de uma realidade
que ora me escapa por entre os dedos rotos
rastejar-me de medo – infelicidade -
carregado de segredos em mundo ignoto

Da plenitude bela de uma vida instante
à abjeta dualidade residente dentro de mim
passam-se os dias, passam-se os meses, passam-se os anos
em mares de tristeza eterna, e que já não têm mais fim!

Dihelson Mendonça – Texto e Foto

CRATO- CIDADE PRINCESA – José Guedes de Sena

Nota:

Aqui está um belo soneto, escrito por José Guedes de Sena, que revela o grande amor que todos nós temos pelo Crato querido. Texto enviado por sua filha, Rita Maria L. Guedes. É um prazer publicar…

Engastada ao sopé da Araripe Altaneira,
Tu te ergues do solo,firme e majestosa,
Crato, Cidade Princesa,joia preciosa,
Fonte de cultura, forte e sobranceira!

O teu passado é um turbillhćo de glória,
Cujo heroķsmo,os teus filhos reverenciam
Como um feito sublime de nossa história,
Que os tempos jamais apagariam.

Orgulho de uma raēa que vibra e que canta,
Cuja vidźncia, prever o teu povir
Aureolado de flores e de amor que tudo encanta!

E, nos singelos versos deste meu poema,
Eu gritarei bem alto com toda źnfase!
Crato! Tu és a Princesa da Terra de Iracema!!!

José Guedes de Sena

*junho de 1904
+junho de2004

Enviado por sua filha, Rita Maria L.Guedes.

Crato e as Noivas de Maio – Por Pachelly Jamacaru

E o mês de Maio, mantêm a tradição dos enlaces matrimoniais! Basta dar-mos uma voltinha pela nossa cidade e, a qualquer hora, a qualquer momento, podemos nos deparar com cenas como estas, onde pombinhos sobem aos altares das igrejas, capelinhas, e juram amor eterno! Abençoados sejam!


” Noiva “

Ei-la toda de branco. Aos pés, o imenso véu
como em flocos de espuma, espalhado no chão…
No ar, dentro do olhar, cabe inteirinho um céu,
e leva um céu maior dentro do coração…

Nos lábios… Ah! nos lábios o sabor do mel,
e uma carícia em flor se entreabre em cada mão,
- e que tremor no braço, ao deixar no papel
o nome dela, o dele… os dois desde então…

Quem lhe falou da vida ? A vida é um sonho, a vida
é esse caminho azul, esse estranho embaraço
de sentir-se ao seu lado adorada e querida…

Aos seus pés, como nuvem branca, o imenso véu…
Quem dirá, que ao seguir apoiada ao seu braço
não pensa que caminha em direção ao céu ?…

( Poema de: JG de Araujo Jorge extraído do livro
“Os Mais Belos Poemas Que O Amor Inspirou”
Vol. I – 1a edição 1965

Foto: Pachelly Jamacaru

Homenagem à todas as Mães…


Quando você achou que eu não estava olhando…
…eu vi você pendurar meu primeiro desenho
na porta da geladeira,
e imediatamente, quis fazer outro desenho.
Quando você achou que eu não estava olhando, eu vi você
alimentando um gato perdido,
e aprendi que é muito bom tratar bem os animais.
Quando você achou que eu não estava olhando,
eu vi lágrimas em seus olhos,
e eu aprendi que, às vezes, coisas nos machucam,
mas que é permitido chorar.
Quando você achou que eu não estava olhando,
eu vi você fazer para mim o meu bolo favorito,
e aprendi que pequenas coisas podem ser
muito especiais na vida das pessoas.
Quando você achou que eu não estava olhando,
eu vi você rezando e eu soube que há um Deus
com quem eu podia sempre conversar e aprendi a confiar neste Deus.
Quando você achou que eu não estava olhando,
eu senti o seu beijo de boa noite.
Senti-me amado e protegido. Eu vi você fazendo comida
e levando para uma amiga que estava doente.
Eu aprendi que todos nós devemos nos ajudar e cuidar dos outros
Quando você achou que eu não estava olhando, eu vi você
cuidar da nossa casa e de todos que moram nela,
e eu aprendi que temos que cuidar de tudo que nos foi dado.
Eu aprendi, como uma das maiores lições de vida,
que eu precisava aprender com você
a ser uma pessoa boa e produtiva quando crescesse.
Quando você achou que eu não estava olhando,
eu olhei para você e quis dizer:

“Obrigado por todas as coisas que eu vi quando você pensou que eu não estava olhando.

Obrigado mamãe!

( Autor desconhecido )

Dihelson Mendonça

Mais uma vez, saudade! – Por Claude Bloc

Casa da Serra Verde – Pintura a óleo de Claude Bloc

…… Eis-me em silêncio, numa dessas fraturas de um tempo de aceitação. Aceito essa saudade que me chega em meio aos sargaços da idade…Essa saudade que é fruto da minha lembrança, e que vai aos poucos embaraçando-se em tantas e tantas fugas, cicatrizes, contrapontos… Saudade que me enlaça nesse imenso azul me abordando sutilmente, abrindo as comportas dos sentimentos e o tropel silencioso das horas insólitas…

…… A saudade não me causa fadiga: ela me acerta e me completa. Com o refluir do tempo, ela acaba sendo para mim a súmula de tudo para se tornar a essência do meu canto.

…… A saudade não subjaz ao simples acaso de um verso. Ela faz pulsar a arte nos desconcertos da poesia…

…… A saudade, a minha saudade, inscreve-se no silêncio, como uma órbita revelada em metáforas. Rompe a crosta que a separa do encantamento e vai concentrar-se nos vazios da alma…

…… A saudade do Crato é outra história. A minha!

Por Claude Bloc

Flor-de-maio – Por Fernando Sabino

Entre tantas notícias do jornal – o crime do Sacopã, o disco voador em Bagé, a nova droga antituberculosa, o andaime que caiu, o homem que matou outro com machado e com foice, o possível aumento do pão, a angústia dos Barnabés – há uma pequenina nota de três linhas, que nem todos os jornais publicaram. Não vem do gabinete do prefeito para explicar a falta dágua, nem do Ministério da Guerra para insinuar que o país está em paz. Não conta incidentes de fronteira nem desastre de avião. É assinada pelo senhor diretor do Jardim Botânico, e nos informa gravemente que a partir do dia 27 vale a pena visitar o Jardim, porque a planta chamada “flor-de-maio” está, efetivamente, em flor.
Meu primeiro movimento, ao ler esse delicado convite, foi deixar a mesa da redação e me dirigir ao Jardim Botânico, contemplar a flor e cumprimentar a administração do horto pelo feliz evento. Mas havia ainda muita coisa para ler e escrever, telefonemas a dar, providências a tomar. Agora, já desce a noite, e as plantas em flor devem ser vista pela manhã ou à tarde, quando há sol – ou mesmo quando a chuva as despenca e elas soluçam no vento, e choram gotas e flores no chão.
Suspiro e digo comigo mesmo – que amanhã acordarei cedo e irei. Digo, mas não acredito, ou pelo menos desconfio que esse impulso que tive ao ler a notícia ficará no que foi – um impulso de fazer uma coisa boa e simples, que se perde no meio da pressa e da inquietação dos minutos que voam. Qualquer uma destas tardes é possível que me dê vontade real, imperiosa, de ir ao Jardim Botânico, mas então será tarde, não haverá mais “flor-de-maio”, e então pensarei que é preciso esperar a vinda de outro outono, e no outro outono posso estar em outra cidade em que não haja outono em maio, e sem outono em maio não sei se em alguma cidade havera essa “flor-de-maio”.
No fundo, a minha secreta esperança é de que estas linhas sejam lidas por alguém – uma pessoa melhor do que eu, alguma criatura correta e simples que tire desta crônica a sua única substância, a informação precisa e preciosa: do dia 27 em diante as “flores-de-maio” do Jardim Botânico estão gloriosamente em flor. E que utilize essa informação saindo de casa e indo diretamente ao Jardim Botânicoa ver a “flor-de-maio” – talvez com a mulher e as crianças, talvez com a namorada, talvez só.
Ir só, no fim da tarde, ver a “flor-de-maio”; aproveitar a única notícia boa de um dia inteiro de jornal, fazer a coisa mais bela e emocionante de um dia inteiro da cidade imensa. Se entre vós houver essa criatura, e ela souber por mim a notícia, e for, então eu vos direi que nem tudo esta perdido, e que vale a pena viver entre tantos sacopãs de paixões desgraçadas e tantas COFAPs de preços irritantes; que a humanidade possivelmente ainda poderá ser salva, e que às vezes ainda vale a pena escrever uma crônica.”
(Fernando Sabino)
P.S.Recebi de uma amiga, e compartilho com vocês.

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